![]() Afinal, que crescimento econômico é esse? Djalma Lopes Góes, 37, sociólogo, que já atuou como agente comunitário de Direitos Humanos e no projeto Bibliotecas Comunitárias no IBEAC, expõe um pouco da sua trajetória.
“No início, queríamos montar uma biblioteca no bairro Cidade Tiradentes, em SP, por causa da inexistência de espaços para leitura naquela região. Queríamos incentivar e mobilizar a população, para que aprendessem a reivindicar direitos à literatura, cultura, educação, saúde, etc.
Na época não tínhamos recursos e, os jovens agentes de direitos humanos, que participavam do projeto de formação do IBEAC, tinham uma bolsa. Acordamos que guardaríamos esse dinheiro para iniciar a criação da biblioteca. Além disso, o projeto do IBEAC tinha recursos para a compra de um acervo inicial de livros e vídeos relacionados ao tema dos Direitos Humanos.
Os encontros eram na escola Ana Lamberga Zeglio. Fazíamos formação lá e a diretora ofereceu o espaço para começar a Biblioteca e Centro de Documentação.
Em 2001, o IBEAC fez um acordo com a COHAB que cedeu uma sala para montarmos o Centro de Documentação. Era um espaço abandonado e utilizamos o dinheiro da bolsa para reformar o lugar. Logo depois, por meio da Bel Santos, um grupo de Italianos envolvidos com causas sociais quis investir no projeto.
Desse grupo surgiu o JACDH – Grupo de Jovens Agentes Comunitários de Direitos Humanos, com 25 jovens. Um tempo depois a biblioteca ganhou um prêmio da Unicsul. Com essas verbas conseguimos melhorar o espaço, mobiliamos o lugar (mesas, computadores, vídeo, TV, um compressor para fazer grafitagem, um “transfer” para confeccionar camiseta, etc.)
Felizmente, em dezembro de 2001, inauguramos o Centro de Documentação de Direitos Humanos e Biblioteca Comunitária Solano Trindade.
Em paralelo, continuamos com o trabalho de formação e iniciamos o de multiplicação, íamos até as escolas para conversas com os alunos e professores sobre DST/AIDS.
Depois que viramos multiplicadores, o IBEAC convidou algumas pessoas do grupo para darem uma formação em Direitos Humanos, no bairro Jardim Savério. Desenvolvemos um trabalho de sensibilização em Direitos Humanos com os ACS – Agentes Comunitários de Saúde. Minha área de atuação era Cidade Tiradentes, Guaianazes e São Mateus. Focamos o trabalho na questão das violências, particularmente contra mulher e crianças.
Fora isso, fazíamos outras atividades ligadas ao Hip Hop (grafite, break, DJMC). A convite do IBEAC fui para Várzea Paulista falar sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Fui conselheiro tutelar de Cidade Tiradentes no período entre 1995 e 1998.
O interesse pelas questões sociais
Comecei cedo. Primeiro por ver a questão da pobreza, por viver longe do centro, pela dificuldade de acesso às políticas públicas que eu presenciava no bairro em que eu vivia.
Além disso havia a questão de “ser preto” muito forte... a descoberta da música Rap e a influência de 2 professores Edlaine na 8ª série e Dima, que trabalharam filosofia e sociologia no ensino médio. Eles marcaram minha visão. Foi com eles que, mesmo sem muito conhecimento, me transformei em socialista, passei a me declarar assim nos grupos de Rap. Também teve o prof. Valter Almeida Costa que coordenava o programa “Rapensando a Educação”, que quando viu que cantávamos Rap nos chamou para atividades políticas.
Foi importante porque eu consegui perceber como a classe trabalhadora sofre injustiças, pois são negados os recursos básicos: moradia, educação, saúde, cultura etc. Percebi que essa é a luta pela igualdade, pelo mínimo de dignidade e não vejo como trilhar outro caminho.
Hoje, me percebo dentro de um universo maior. Não vejo a mudança como algo individual, só como algo que vem do coletivo. Continuamos aplicando a metodologia do IBEAC e lutando contra a dominação de gênero, de classe, contra o racismo e a homofobia.
Como profissional, posso dizer que somos educadores diferenciados, não fazemos só transmissão de conteúdo. Todo esse processo acarreta em mais sabedoria, experiência, e também nos traz um certo isolamento. Em certos momentos ficamos solitários porque somos críticos e poucos aceitam. Já fui mandado embora de empresa por causa disso. Muitas ONGs de São Paulo não querem gente crítica.
Em relação aos jovens, as pessoas dizem, todo dia, que são a causa da violência, falam que Direitos Humanos são aplicados apenas para bandidos e Estatuto só protege delinqüentes. Além do mais, temos que desconstruir o que a televisão vai empurrando de forma estereotipada, a todo o momento.
Aprendemos muito com a Vera e a Bel pela oportunidade que nos abriu um universo de visões e possibilidades.
Djalma Lopes Góes - Sociólogo São Paulo/SP |
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