Cuidados prioritários com a primeira infância desde a barriga.

 

A primeira infância é o momento de adentrar um mundo desconhecido, onde a cada segundo se abre um universo cheio de descobertas e aprendizados. A luz, as texturas, os gostos, os diferentes tipos de sons e cheiros, tudo é uma grande novidade para quem acabou de chegar ao mundo, sendo uma fase muito importante do desenvolvimento humano. É o período em que aprendemos a dar os primeiros passos, os primeiros sorrisos, a dizer as primeiras palavras. Todo esse processo de formação inicial também se dá em contato com o mundo à nossa volta. Nossos pais e familiares, a comunidade, a cultura, o local em que vivemos colaboram para construir quem somos. Ou seja, as diferentes situações em que vivemos interferem em nossas trajetórias de vida. 

Os dados nacionais demonstram grandes preocupações presentes no contexto brasileiro: segundo a organização Visão Mundial, foram registrados um milhão de casos de violações contra crianças e adolescentes entre 2011 e 2015, sendo a violência física a mais comum. E a realidade de Parelheiros, extremo sul da capital paulistana reflete esses dados: sendo a região com o 2º pior Índice de Desenvolvimento Humano (0,747) do município (2016), possui alta violência contra crianças de 2 e 3 anos de idade (PUCRS). As mulheres e gestantes também vivem uma triste realidade: Parelheiros apresenta altos índices de violência contra mulheres, a 4ª mais alta da cidade e 19,70% das gestantes não possuem pré-natal suficiente (Mapa da Desigualdade de SP 2018 – Nossa São Paulo).

O Instituto Brasileiros de Estudos e Apoio Comunitário – IBEAC em conjunto com a comunidade de Parelheiros assumiram o desafio de enfrentar os altos índices de violência presentes no território, cuidando das gestantes, dos bebês e crianças pequenas, oferecendo melhores perspectivas e oportunidades para toda comunidade. 

 

Cuidar de uma criança é necessária uma aldeia

O IBEAC se preocupa com o desenvolvimento integral dos pequenos e pequenas, sempre cercados de cuidados e afetos, pensando a primeira infância muito antes dos bebês chegarem ao mundo. Se o ambiente em que vivemos impacta nossa formação inicial, nossa preocupação também deve se voltar para o território e para a comunidade em que os bebês nascerão.  

Levamos muito a sério o ditado popular “Cuidar de uma criança é necessária uma aldeia”. O Centro de Excelência em Primeira Infância em São Paulo promove diversas ações que tem por objetivo a formação de times em Parelheiros, buscando impactar e transformar positivamente a vida dos bebês, das crianças pequenas, de suas famílias e de toda a comunidade. Mas como fazemos isso? 

As ações nas “Ruas Adotadas” promovem o acolhimento  das crianças e suas famílias pela comunidade. As brincadeiras, o plantio na rua e nos quintais, as pinturas com tinta de terra, a contação de histórias, o contato com a música, teatro, dança, cinema e a literatura cria mais espaços de aprendizagem com a participação ativa da comunidade. Todos e todas se mobilizam para cuidar e autocuidar-se, se apropriando do espaço e das responsabilidades com as crianças e com as novas vidas que estão chegando, com foco nas especificidades e desenvolvimento de cada idade. 

Também, promovemos outras ações que buscam o acolhimento e cuidados dos bebês, crianças, gestantes e mães. Criamos redes de apoio que envolvem a vizinhança, comunidade e outras parcerias como os/as profissionais da saúde, educação e assistência social, integrando as potencialidades já presentes no território. É muita gente mobilizada e preocupada com o futuro de nossas crianças, criando melhores oportunidades de vida. 

 

 

Cuidar de quem cuida da gente

Mas nosso olhar  também se volta para as mães e as famílias dos pequenos e pequenas. As gestantes da comunidade de Parelheiros, onde estamos atuando diariamente, são atendidas na Maternidade Interlagos, a 12 km de distância. Entre as horas de um exame e outro, as futuras mamães não conseguem voltar para suas casas. Com o objetivo de diminuir as distâncias e criar um local de acolhimento e cuidados e (trans)formações para as gestantes, IBEAC e CPCD uniram forças e inauguraram “No meio do caminho tinha uma casa”, um espaço bem pertinho da Maternidade.  

Outras ações são promovidas pelo IBEAC. A começar pelas Mães mobilizadoras. Esse time de mães realizam diversos trabalhos que buscam o desenvolvimento do presente e do futuro da região, mobilizando solidariedades, afetos, cuidados e compromissos com a comunidade. Diversas ações são desenvolvidas no intuito de cuidar de quem cuida da gente. O “Cafuné obstétrico”, por exemplo, promove cuidados amorosos com as gestantes e seus familiares, acompanha o plano de parto das gestantes, realiza book fotográfico para guardar memórias da gestação e promove rodas de conversas sobre a gestação e o autocuidado. 

O empoderamento feminino das mulheres e gestantes em um local que as violências incidem sobre essas populações se torna essencial para a emancipação, cuidado e proteção. O “Toque de Mãe” promove rodas de conversa, escuta ativa, formações e diálogos no território. Orientações de autocuidado e cuidados com os bebês também fazem parte das práticas. E nesse processo o olho-no-olho é muito importante. Visitas às casas de gestantes e mães, à maternidade e ao ambulatório aproxima a comunidade e fortalece relações e vínculos. 

A proteção integral das gestantes, dos bebês e das crianças é causa assumida para o IBEAC. Mobilizando comunidades, construindo conjuntamente soluções, enfrentando de desafios e valorizando as potencialidades do território, pretendemos construir oportunidade e perspectivas de um futuro mais justo, digno e cooperativo, tendo em vista cuidados prioritários à primeira infância desde a barriga.