Gente Ibeac – Vera Lion

Vera Lion, segunda à esquerda Vera Lion, segunda à esquerda

Conheça um pouco da coordenadora de projetos do Ibeac

Workaholic é apelido fichinha para ela. Às cinco da manhã, Vera Lion já está respondendo ou escrevendo e-mails. Sofro de uma insônia crônica. Daí no lugar de ficar rolando na cama, prefiro adiantar os assuntos, ela confidencia. Esse perfil de trabalhadora obsessiva e fora-do-expediente é comum entre as altas executivas da iniciativa privada.

No entanto, Vera Lion trabalha faz quase quatro décadas com projetos sociais. O tipo de atividade que tira o couro e o suor e não engorda a conta bancária. Mas dá uma satisfação danada ajudar na transformação das pessoas. Auxiliar uma comunidade a viver melhor é o objetivo de todo trabalho social, ela vai explicando enquanto confere mensagens no seu smartphone.

Vera Lion conhece a periferia de São Paulo como gente grande. E detesta a vida de gabinete. Apesar dos títulos acadêmicos – graduada em ciências sociais, com mestrado e doutorado em Serviço Social pela PUC—SP, ela gosta mesmo é de trabalhar na ponta, lado a lado com as pessoas. Gosta de saber dos cotidianos, de como as pessoas cuidam dos filhos, como fazem para matar um leão por dia, como se apaixonam, como aprendem.

Eu estudei num colégio para privilegiados. Aos fins de semana havia um programa de trabalhos voluntários na periferia. Pois eu adorava. Eu sempre tive curiosidade pelo outro, Vera explica. Esse outro tinha uma condição de vida muito diferente da menina moradora dos Jardins, bairro rico de São Paulo. A família chegou a pensar que ela queria ser freira.

Mas não era nada disso. O que ela desejava era um trabalho que desse sentido a suas inquietações e que respondesse ao seu espanto. Vera pontua: A desigualdade na sociedade brasileira é severa. Não é só desigualdade de classe. É entre homem e mulher, negro e branco, adulto e criança, nordeste e sudeste. É claro que eu não acredito em igualdade absoluta. Mas é insuportável conviver com o tamanho da nossa desigualdade. Quando já era mãe de três filhos – Marcelo, Camila e Juliana – Vera encontrou sua turma e sua praia.

Em 1983, começou a trabalhar no IBEAC – Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário, que teve com um dos fundadores o ex-governador de São Paulo André Franco Montoro (1916-1999). O momento político era de redemocratização. Os movimentos socais estavam a um milhão por hora depois de vinte anos de ditadura militar. A gente funcionava como uma espécie de ponte entre os movimentos e o poder público. Nossa lema era, e ainda é, toda força à participação popular, Vera resume.

Os trabalhos que seguiram foram intensos. Com o cargo de coordenadora do Programa de Direitos Humanos do IBEAC, ela e sua equipe rodaram boa parte do país, com destaque para a região amazônica. Fizeram oficinas de Formação em Direitos Humanos no Acre, Roraima, Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá. Ela conta: Muita gente viajava três dias de barco para participar das nossas oficinais. Compareceram líderes indígenas, representantes de grupos de mulheres, grupos de jovens. Foi extremamente gratificante conferir o resultado. Teve quem descobrisse seus preconceitos. E, principalmente, as pessoas se informaram acerca dos próprios direitos e dos direitos da comunidade.

Informação é ouro. Pessoas informadas são menos vulneráveis, menos manipuladas. Só é possível exigir que os direitos sejam cumpridos se você souber quais são eles. Vera conta: Eu sonho com a construção de uma cultura de direitos. Uma cultura na qual o respeito pelo outro seja quase natural. O outro pode ser a travesti, o idoso, a lésbica, o cadeirante, o analfabeto, o semianalfabeto, o gay, a menina com síndrome de Down, a mulher negra, o pobre. Todos esses segmentos que sofrem com o preconceito, o estereótipo e a discriminação. Os direitos humanos não são assunto de advogados, eles dizem respeito a cada um de nós. Precisamos ter postura digna no trato das relações sociais.

Relação é uma palavra chave no universo de Vera Lion. Ela explica: Tudo está conectado. A sociedade se estrutura em relações: familiares, de gênero, de raça, de classe, entre outras. Não adianta um homem ser um ótimo trabalhador e bater na mulher. Não adianta uma mulher ser uma profissional brilhante e berrar com os colegas. Temos que nos esforçar para sermos corretos e consistentes. Eu acredito nisso.

Outra aposta de Vera é no poder da juventude. Gosto de trabalhar com os jovens, pois eles querem mudar as coisas. São muito criativos e animados. Além de serem multiplicadores naturais. Um jovem ouve mais um outro jovem do que a um adulto. Acredito que o jovem não é o futuro. Ele é o presente, o aqui e o agora.

São sete e meia da manhã, Vera Lion vai encerrando a entrevista. Terá uma longa jornada pela frente em um lugar bem distante da Vila Madalena, onde mora. Hoje o trabalho será com um grupo de mulheres que estão se organizando, em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, para discutir e enfrentar a violência doméstica – esse terror que segue pelo Brasil inteiro.

Mas antes ela arranja dois minutinhos para mostrar no seu celular os retratinhos dos netos: Esses são os meus meninos: Pedro, Daniel, Lucas, André e Stela.


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Uma resposta para “Gente Ibeac – Vera Lion”

  1. Val disse:

    Nossa, essa Vera Lion é demais

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